terça-feira, 4 de julho de 2017

“Não foi um acidente”, diz Ailton Krenak sobre a tragédia de Mariana

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Povos Indígenas no Brasil


Em depoimento à equipe Povos Indígenas no Brasil do ISA, o líder indígena fala do impacto da tragédia de Mariana (MG), que completou um ano no dia 5/11, sobre o território de seu povo


No dia 7 de setembro de 2016, pesquisadores do tema Povos Indígenas no Brasil, do ISA, entrevistaram o líder Ailton Krenak sobre os impactos no território krenak do desastre de Mariana (MG), o maior crime socioambiental já registrado no Brasil e que completou um ano no último dia 5/11.






Para ele, a derrama de rejeitos da barragem do Fundão, da mineradora Samarco/BHP Billiton, da Vale, que devastou o distrito de Bento Rodrigues e o Rio Doce, de Minas Gerais até o Espírito Santo chegando ao Oceano Atlântico, foi um tiro de misericórdia em um povo que sofre há décadas com os impactos da mineração em suas terras: “Eles botaram o rio em coma e eu quero ver quem é que vai conseguir sobreviver sem água. Se os Krenak aguentaram toda essa tortura ao longo de quase 100 anos, inaugurada na década de 1920, agora com o rio morto, como vai ficar?”, questiona.
A íntegra da entrevista, em que Krenak fala ainda sobre a luta pelo reconhecimento de suas terras em Minas Gerais, sobre os ataques aos direitos dos índios e a política dos "brancos" para o Brasil, você confere na próxima edição do livro Povos Indígenas no Brasil 2011-2015, do ISA.
Veja abaixo alguns trechos do depoimento de Ailton Krenak a respeito do crime ambiental de Mariana.








“O evento mais dramático que o povo da Bacia do Rio Doce vive, segue vivendo, é essa derrama de veneno na cabeceira do rio. Aquela gosma da Samarco e da Vale, aquele material tóxico, recobriu as lajes de pedra com uma coisa plástica, que não deixa nem que o lodo, o líquen, que novos materiais orgânicos se constituam ali para criar um ambiente de vida aquática. A ictiofauna, as espécies de água, foram todas eliminadas.
Não foi um acidente. Quando eu ouço perguntarem sobre ‘o acidente’ de Mariana, eu reajo dizendo que não foi um acidente. Foi um incidente, no sentido da omissão e da negligência do sistema de licenciamento, supervisão, controle, renovação das licenças, autorização de exploração. O Estado e as corporações constituíram um ambiente promíscuo e delinquente, em que ninguém controla ninguém e no qual os engenheiros e os chefes de segurança, que informam os relatórios, também sabem que não tem consequência nenhuma se eles matarem um patrimônio inteiro, uma vila inteira ou, eventualmente, se matarem uma comunidade inteira.
Eles estão assentados sobre uma história colonial miserável, em que acham que fazem um favor enorme de estar comendo aquelas montanhas, empacotando aquelas montanhas e registrando um aumento no PIB brasileiro. Essa mentalidade estúpida, desse capitalismo que não dá nem pra chamar de selvagem, só pensa na exaustão dos recursos da natureza – que eles muito apropriadamente chamam de ‘recursos naturais’ e, cinicamente, matam rios, montanhas, florestas com a justificativa de que estão fazendo o desenvolvimento.
Watu, que é como nós chamamos aquele rio, é uma entidade; tem personalidade. Ele não é um ‘recurso’ como os pilantras dos engenheiros da Vale, administradores do Governo, da Agência Nacional das Águas, do Comitê de Bacias sugerem. Eles criam toda essa linguagem despistante, malandra, para sugerir que foi um acidente, que eles usam recursos e que as pessoas, os coletivos, as comunidades que são atingidas por esse dano, são vitimadas por esse evento, são ‘beneficiários’. Os beneficiários da presença dessas corporações na nossa região ficam sujeitos a acordar soterrados por uma lama venenosa.
Dia 5 de novembro [de 2016] completa um ano desde que milhares de famílias foram, de uma hora para outra, divorciadas do corpo do rio. Os municípios que estão ao longo dessa bacia têm uma população de um milhão e meio de pessoas, diretamente afetadas pela derrama da lama tóxica sobre o Rio Doce. “Diretamente” significa que, indiretamente, pode-se colocar isso na casa dos dez milhões. Mas e a biodiversidade? A Bacia do Rio Doce foi cauterizada. Agora, aquele corredor de 800 km é uma calha morta. E surpreendeu a todos nós que, logo nos primeiros 15 dias daquele grave desastre, as pessoas tenham saído em defesa da Vale e da Samarco, dizendo: ‘Ah, vamos recuperar o Rio Doce’. Ora, o que nós temos, de fato, é que a Bacia do Rio Doce vem sendo assaltada pelas atividades de mineração e também pela implantação das indústrias de processamento de celulose e de minério”.
Impactos históricos
“O Rio Doce, o Watu, pode ser pensado como um lugar onde, na primeira metade do século XX, até a década de 1920, os Krenak viviam ainda com a inocência de ter um rio sagrado, carregado de significado, de símbolos, onde os espíritos da água interagiam com as pessoas – de onde as famílias tinham certeza de que podiam tirar comida, remédio. Quando a atividade de abrir a estrada de ferro Vitória-Minas se iniciou, foi o fim da vida livre dos Krenak no Rio Doce. Há imagens que mostram os engenheiros aliciando os índios para cortar troncos na floresta do Rio Doce para fazer os dormentes. E, como os índios tinham curiosidade da presença daqueles trabalhadores, eles acabaram atravessando o rio e iam para a margem direita para ver os brancos, ficar perto deles. Essa curiosidade dos Krenak custou caro, porque pegaram muitas doenças dos brancos e morreu muita gente; crianças, velhos. Um dos marcos do desastre que tem sido a ocupação do Rio Doce para os Krenak é a abertura da ferrovia Vitória-Minas. Aí é que a vida dos índios virou um inferno.
E, com todo o abuso do Estado, todo o autoritarismo característico daquela época, os índios eram como moscas. Se o trem matasse meia dúzia deles, não fazia diferença alguma. Há relatos dos antigos sobre o tanto de gente que morria atravessando a ferrovia, porque não tinha nenhum sistema de vigilância, nem de alerta, para explicar aos índios que não podiam atravessar o leito da ferrovia – ou que não podiam caminhar acompanhando os trilhos do trem. Eles eram surpreendidos com o trem em cima deles, às vezes.
É desse tempo que os Krenak deram pro trem o nome de Guapo. É uma expressão muito curiosa, porque é como se eles estivessem chamando o trem de ‘braço mecânico’. É uma ideia totalmente abismada; eles achavam que aquela ferragem que movimenta o trem era uma coisa viva, um braço. A ferrovia foi se consolidando cada vez mais. Colocou as bitolas largas, máquinas maiores: a terra dos índios diminuindo e a máquina aumentando. As nossas montanhas virando mercadoria nesses trens e vagões; todas composições grandes para transportar minério para o porto do Espírito Santo.Toda essa industrialização da década de 1940 e 50 para cá, sangra a vida dos Krenak, encurralou as famílias. Essa derrama agora foi o tiro de misericórdia.
A aldeia está sendo abastecida por dois caminhões pipa que passam nas casas enchendo caixas d'água duas vezes por semana e entregam nas casas das famílias um fardo com 20 garrafas de 2 litros [de água mineral], porque o Ministério Público obrigou a Vale e a Samarco a fazerem a entrega para essas famílias que foram vítimas desse crime ambiental incalculável.
Você imagina como uma comunidade ou uma família vai criar bichos sem água? Qual sustentabilidade tem manter aquela população bebendo água mineral? Isso parece aquela história da Revolução Francesa, próximo da tomada da Bastilha, quando falaram para a rainha que o povo estava sem pão e ela respondeu: 'Mandem comer brioches!'. Então, esses cretinos, quando disseram que o povo do Rio Doce estava sem água, eles falaram: ‘Bebam água mineral!’”
Um rio em coma
“Mesmo que a empresa seja condenada a suprir aquela gente com água mineral naquele lugar, parece que você está colocando uma pessoa num balão, botando soro nela, oxigênio, e ela vai ficar em coma como o rio. O rio está em coma. De certa maneira, essa prontidão que as pessoas estão vivendo na margem do rio agora deixa elas no mesmo estado simbólico de coma em que o corpo do rio está. Eu vejo isso como uma coisa tão assustadora, que tenho dificuldade de falar no Watu sem me revoltar.
A desgraça de nós estarmos vivendo um momento político extremamente pobre também não cria canais de interlocução. Se não fosse o Ministério Público ficar esgoelando em cima desse episódio... O Executivo estadual anda de joelhos para as mineradoras; e o Governo Federal, a [então] ministra do meio ambiente sobrevoou a Bacia do Rio Doce e teve a cara de pau de dar um relatório três semanas depois, dizendo que a empresa tinha sido vítima de uma tragédia. 'A empresa foi vítima de uma tragédia'! O governador Fernando Pimentel (PT/MG) se reuniu com os diretores da Samarco e deu uma entrevista dizendo que era solidário com a empresa.
O ICMBio e o Ibama não têm competência para avaliar a extensão do desastre, então contrataram uma consultoria internacional, que concluiu que houve um abalo sísmico e que nem é possível fazer um seguro – porque essas grandes corporações têm seguros bilionários dessas minas. Mas, ao concluir um laudo – uma auditoria interplanetária! – dizendo que foi um acidente sísmico, você não só dá um chapéu no seguro: dá um chapéu em todo mundo, um chapéu tipo mexicano, um amplo chapéu em todos os otários do planeta.
Tenho a impressão de que eles estão arrumando uma maneira de dar no pé, sair da cena do crime, sem nem pedir desculpa. Se continuarem espremendo a Vale e a Samarco, eles podem arrumar uma maneira de a Samarco decretar insolvência, falência, ou qualquer coisa do tipo, sumir daqui e reaparecer em qualquer outro continente depois, detonando o planeta, sem pagar a conta do que eles deixaram pra trás.
Esse evento denuncia um quadro global, no qual paisagens, territórios e comunidades humanas fazem parte de um pacote que essas grandes fortunas, através das suas corporações, continuam tratando como material descartável. Nós somos ajuntamentos nada relevantes para esses caras e eles nos manipulam do jeito que querem. Somos colônias avassaladas. Esses caras fazem o que querem com os nossos territórios, nosso litoral, nossa floresta.
O Rio Doce só grita de uma maneira incontida o fato de estarmos todos sujeitos a ser plasmados por uma meleca tóxica dessas em qualquer lugar e não ter nem a quem reclamar. Nós estamos em maus lençóis”.




Entrevista realizada por Marília Senlle, Mario Brunoro, Rafael Monteiro Tannus e Tatiane Klein



FONTE: https://www.socioambiental.org/pt-br/noticias-socioambientais/nao-foi-um-acidente-diz-ailton-krenak-sobre-a-tragedia-de-mariana

sexta-feira, 23 de junho de 2017




Um dos maiores líderes políticos e intelectuais dos povos indígenas no Brasil, Ailton Krenak está confirmado no Cine Kurumin - Festival de Cinema Indígena! Krenak compõe o júri do festival e fará a conferência de abertura, com o tema “Da minha aldeia vejo o mundo”, no dia 12 de julho, às 18h30, na Sala de Arte do Museu (Corredor da Vitória). Imperdível!

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Afinal de contas, o que o índio brasileiro espera do Brasil?

Yahoo Notícias Yahoo Notícias7 de junho de 2017



Atualmente existem 462 territórios classificados como Terras Indígenas (TI) no Brasil. Habitadas por cerca de 300 povos, representam apenas 12% do território nacional. Só em 1990 o Estado reconheceu a necessidade de demarcar e proteger as terras pertencentes aos povos nativos. Mas isso não é o suficiente. Afinal, os índios deveriam ser reconhecidos como os brasileiros originais. O que os descendentes de povos nativos precisam para serem reconhecidos adequadamente?

Para ter uma idéia das principais demandas do povo indígena brasileiro, nesta série de quatro matérias, o @yahoobr conversou com dois dos principais líderes do movimento no país e traçou um perfil da luta e das dificuldades atuais dos índios no Brasil.

Almir Narayamoga Suruí é hoje uma das lideranças políticas indígenas do país. Filiado à Rede – RO, hoje vive e defende a Terra Indígena Sete de Setembro, em Cacoal, no mesmo estado. Ele nasceu apenas cinco anos depois do contato de sua tribo com o homem branco. Aos quinze anos resolveu estudar biologia, na Universidade Federal de Goiás, onde desenvolveu pesquisas para defesa étnica e ambiental e lutou contra o desmatamento. Ele propôs ao Google um projeto de mapeamento por satélite da reserva Suruí. Na ocasião ajudou a catalogar etnias, aldeias, locais de confrontos e pontos sagrados da comunidade local.

Almir esclarece que a situação indígena é mais delicada que parece aos olhos de quem apenas observa o assunto à distância, como é o caso da grande maioria da população brasileira.

“Ao definir o indígena brasileiro temos que ver vários aspectos: índios isolados são aqueles que voluntariamente se recusam a fazer contato com o não-indígena. Estes estão totalmente vulneráveis diante do avanço do agronegócio, da construção de estradas e hidrelétricas, das minerações e das invasões de terras. Suas vidas correm perigo constante e eles estão totalmente desamparados pelo poder público”, explica.

“Os indígenas contatados estão na luta para manter os territórios já demarcados e para que se demarquem os que ainda não foram demarcados. Eles querem desenvolver de forma sustentável sua agricultura e alternativas econômicas que mantenham a floresta em pé, como projetos de Sistemas Agroflorestais (SAF), pisciculturas e reflorestamentos de áreas degradadas. O índio pode contribuir no combate ao aquecimento global, mas precisa de uma certa autonomia”, pontua.

De acordo com os dados demográficos fornecidos pela Funai e pelo Censo de 2010 do IBGE, a população indígena no país atualmente conta com quase 900.000 indígenas. Todos os estados do Brasil são habitados por índios. Sendo que pouco mais de 500.000 vivem em zonas rurais e cerca de 315.000 em regiões urbanizadas.

217 diferentes línguas indígenas registradas são faladas no país e esse dado é relevante. Mais de 17% da população indígena não fala português, especialmente entre as 69 comunidades que não tiveram contato como homem branco.

Curiosamente, o percentual de indígenas em relação à população branca subiu de 0,2%, em 1991, para 0,4% no ano 2000, um aumento de pouco mais de 10% na população total, refletido no aumento de 150% na quantidade de pessoas que se declararam indígenas no último Censo.

Ailton Krenak é um dos líderes do movimento indígena no Brasil desde a década de 1980, quando fundou o Núcleo de Cultura Indígena. “O movimento indígena organizado fez uma campanha pelo país inteiro coletando assinaturas para uma emenda na Assembleia Nacional Constituinte de 1988, que assegurava o meu direito de representar o interesse desses coletivos indígenas na Comissão de Justiça, na Comissão de Direitos Humanos, nas comissões temáticas que debateram os direitos indígenas no Congresso. Fui então designado para fazer a defesa pública desses princípios que estão na Constituição. Quando eu fiz uma intervenção no Plenário, pintando o meu rosto de jenipapo, eu estava fazendo a defesa pública daquela emenda”, relembra o representante Krenak.

Depois de uma carreira de militância, Ailton Krenak se estabeleceu na região original de seu povo, no Médio Rio Doce, Minas Gerais. Graduou-se produtor gráfico e jornalista e durante a militância, publicou o livro “A Outra Margem do Ocidente”. Em 2016, a Universidade Federal de Juiz de Fora lhe concedeu o título de Professor Doutor Honoris Causa, onde hoje leciona disciplinas aplicadas à cultura indígena.

“Na Constituinte, houve um forte confronto do que, naquela época, chamavam de ‘Centrão’, uma configuração muito parecida com essa do nosso Congresso em que (representantes do) agronegócio e conservadores em geral”.

Que país é esse?

Após séculos de perseguição política, social e econômica, os índios continuam lutando contra os poderes do capital e da política, uma combinação que não defende nenhum dos seus direitos.

“Precisamos de educação formal , mas num modelo que respeite a cultura indígena. Não adianta dizer que o ensino é diferenciado e ir nas escolas das aldeias repetir tudo que é do currículo das escolas dos não indígenas. O MEC (Ministério da Educação) deve inserir no currículo escolar e na merenda escolar conteúdos e matérias próprios do povo indígena, sempre lembrando que cada povo tem cultura e hábitos diferentes”, destaca Almir Suruí.

Krenak concorda com uma cultura mais solidária diante das diferenças antropológicas. “O capítulo dos índios na Constituição de 88 teve uma importância tão grande que ele inspirou mudanças nas constituições no Equador, na Colômbia, no México, no Perú, na Bolívia… Os países da Bacia Amazônica começaram a discutir a possibilidade dos povos de existir com o direito a manterem suas línguas maternas e viver em territórios tradicionalmente ocupados por eles”, observa.

Para Krenak, as constituições dos países vizinhos avançaram muito mais do que a nossa. “A Constituição Brasileira não reconhece outra nação que não seja a nossa, brasileira. Esse debate sobre Estado-Nação já está superado e o que se discute hoje são Estados plurinacionais. Dentro de uma mesma fronteira de um Estado-Nação você tem plurinações com outros povos, outras línguas. A nossa Constituição diz que a Língua Portuguesa é a língua do Brasil.ignorando toda a nossa pluralidade. Essas diferenças não são ameaças e nem ameaçam a soberania nacional, mas são uma riqueza adicional”, opina.


Na saúde e na doença

Almir Suruí é direto ao pedir o básico para a sobrevivência de seu povo. “É preciso garantir atendimentomédico nas aldeias. Assim como na educação, não basta fazer discurso que é diferenciado, tem que realmente ser. Tradições e conhecimento precisam ser preservados, mas não só: a cultura e medicina indígena têm de ser ministradas nas universidades, para garantir um atendimento e intercâmbio mais suave”, diz.

Krenak adiciona: “Eu estive participando de conferências em Portugal onde eles estavam celebrando o ano Ibero-Americano. E o que é isso? É exatamente o que Portugal e Espanha fizeram na colonização das Américas. Isso refletiu na formação desses povos e reflete até hoje na relação que os Estados Nacionais têm com as populações indígenas originárias. Na nossa vizinha América Hispânica existe um tipo de herança colonial que se reflete no trato com o povo originário dessas terras, os indígenas”.

Almir lembra que um mito precisa ser derrubado: o de que o índio é o único protetor da natureza. “Não há como não abraçar o desenvolvimento econômico sustentável. Os índios querem uma economia que respeite a floresta em pé, onde possamos desenvolver economicamente os recursos da floresta, gerando renda e qualidade de vida. Temos sementes, castanhas, óleos, e tantos outros benefícios que precisam receber incentivos do governo para utilizar todos esses bens de maneira tal que se ganhe renda e a floresta permaneça em pé.”

País do futuro?

Em 2007, Almir Suruí tornou-se conselheiro do Conselho Nacional de Política Indigenista (CNPI) e viu de perto como funciona a política por trás de assuntos fundamentais para as causas de seu povo. Hoje distante do órgão ele reflete sobre sua experiência. “O CNPI tem o papel e competência para propor as diretrizes e prioridades para a política nacional indigenista, bem como monitorar se os órgãos responsáveis por essa política estão cumprindo com seu papel. E eu digo que não estão. Basta ver o que está acontecendo com os conflitos de terras. Se elas já estivessem demarcadas não teríamos os problemas que temos hoje no campo”, pondera o líder indígena.

“Eu não acredito que vamos resolver isso de uma hora para outra e nem sozinhos. O Estado Brasileiro é colonialista. O Judiciário, o Executivo e o Legislativo estão cooptados pela ‘casa grande’, pelo ‘dono do engenho’ para usar uma imagem bem colonial. E as populações, que não são donas de terra, de garimpos, da indústria ou de toda a máquina de produção do capitalismo, não são representadas dentro dessas três grandes entidades do Estado. O Estado vai ser sempre configurado para atender esses casos, para atender esses interesses”, conclui Ailton Krenak.

Há uma lacuna entre o que o indígena deveria receber de uma sociedade que obliterou seu modo de vida e o que de fato é feito pelo Estado para preservá-lo. Os mais de 900 mil índios do Brasil talvez não tenham como recuperar o estrago feito pela colonização branca e eles estão cientes disso. Contudo, é plenamente possível integrar de fato o índio na pauta governamental no que diz respeito a direitos básicos como educação, saúde e segurança. Exigir que o governo acolha os índios como cidadãos de primeira classe não é nada além do que a Constituição já exige.



Por Vitor Valencio – @vitorvalencio

Fonte: https://br.noticias.yahoo.com/afinal-de-contas-o-que-o-indio-brasileiro-espera-brasil-183958704.html

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Líder indígena espera que preocupação da ONU com índios tenha repercussões no Brasil

O líder indígena brasileiro Ailton Krenak afirmou hoje esperar que a preocupação manifestada pela ONU com a situação dos índios no Brasil tenha repercussões no país, onde, considera, a situação destas populações "piorou muito" no último ano.

"Espero que uma manifesta preocupação da ONU [Organização das Nações Unidas] sobre a situação dos povos indígenas do Brasil possa repercutir dentro do Brasil, porque a situação jurídica e política das populações indígenas piorou muito de há um ano para cá. Agravou-se muito", disse hoje Ailton Krenak em entrevista à agência Lusa em Lisboa, onde está para participar no ciclo "Questões indígenas: ecologia, terra e saberes ameríndios" do Teatro Municipal Maria Matos.

A ONU disse na quinta-feira estar preocupada com o "grave" ataque levado a cabo por proprietários de terras contra os índios da tribo Gamela, que ocupavam terrenos no Estado do Maranhão, no nordeste do Brasil.

Os ataques, levados a cabo por um grupo de 200 homens ligados aos agricultores locais, munidos de machados e armas de fogo, causaram 13 feridos.

Os índios da tribo Gamela afirmam que as terras, sobre as quais há um litígio, lhes foram doadas no período colonial, mas que eles foram expulsos a partir dos anos 1970 na sequência da expansão agrícola.

Desde 2015 têm vindo a ocupar novamente centenas de terras, o que deu lugar a confrontos com os produtores. Nesse ano, pelo menos 137 índios foram assassinados no Brasil, elevando a 891 o número de mortos desde 2003, segundo dados do Conselho Indigenista Missionário (Cimi).

Para Ailton Krenak, a Constituição de 1988 é "muito positiva na afirmação dos direitos dos povos indígenas", o problema está na aplicação da lei.

O líder indígena considera que "do ponto de vista da formalidade jurídica os povos indígenas têm os seus direitos territoriais assegurados, o que acontece é que o executivo que deveria implementar a Constituição está a agir claramente de maneira abusiva".

"Tomara que essa atenção da ONU, do relatório sobre Direitos Humanos, tenha algum efeito, consiga de alguma maneira chamar a atenção das autoridades no Brasil", disse.

FONTE: http://www.dn.pt/lusa/interior/lider-indigena-espera-que-preocupacao-da-onu-com-indios-tenha-repercussoes-no-brasil-7220228.html

Líder índigena brasileiro acusa governo de prejudicar comunidades

O líder indígena brasileiro Ailton Krenak acusou o governo de Michel Temer de estar "a abusar do exercício do poder" para prejudicar os direitos dos povos índios sobre o território.






O líder indígena brasileiro Ailton Krenak acusou esta sexta-feira o governo de Michel Temer de estar “a abusar do exercício do poder” para prejudicar os direitos dos povos índios sobre o território.

O governo “está a abusar do exercício do poder para protelar ou desfazer atos jurídicos que já tinham reconhecido os direitos indígenas sobre os seus territórios”, disse Ailton Krenak, em entrevista à agência Lusa.

Para o dirigente, que está em Lisboa para participar no ciclo “Questões indígenas: ecologia, terra e saberes ameríndios” do Teatro Municipal Maria Matos, verifica-se uma “apropriação pelas agências do estado” por parte de políticos com “interesses que são francamente contra os direitos indígenas”, visto tratarem-se de “representantes diretos do agro-negócio”. “São empresários que estão a assumir cargos públicos e a levar para o seu mandato político o discurso enquanto empresários”, referiu.

Atualmente vivem no Brasil cerca de um milhão de índios, espalhados por várias zonas do país, mas Ailton Krenak considera que estas comunidades resistem porque são persistentes e não por existirem apoios à sua sobrevivência

Se temos uma população indígena a viver hoje no nosso país é pela persistência dessas pessoas, por um apego e uma valorização extrema do sentido de vida comunitário, de ainda compartilhar o mesmo território, pensar o mundo onde o acesso à água e ao uso dos espaços ainda pode ser compartilhado, que insistem em viver num mundo de coletivos, de comunidades”, defendeu.
Quanto ao futuro, Ailton Krenak vê-o como “uma continuada e difícil resistência” para o povo indígena no Brasil, mas “com uma possibilidade de, a curto-prazo, superar a crise da vida política brasileira”, numa referência ao governo de Michel Temer, que substituiu Dilma Rousseff, afastada por motivos judiciais. “Porque nós temos um governo ilegítimo, que não tem como se sustentar a longo prazo”, disse.

Para este líder indígena, o governo liderado por Michel Temer “está a abusar do exercício do poder para protelar ou desfazer atos jurídicos que já tinham reconhecido os direitos indígenas sobre os seus territórios”. Além disso, considera haver “uma apropriação pelas agências do estado de políticos de interesses que são francamente contra os direitos indígenas”, visto tratarem-se de “representantes diretos do agro-negócio”.


Uma das questões que mais preocupa aquelas comunidades é a não demarcação de reservas, que tem possibilitado a invasão dos territórios por garimpeiros, empresas de madeiras e fazendeiros, e que originam muitas vezes confrontos dos quais resultam mortos e feridos. Para se perceber a importância do tema é necessário citar Ailton Krenak: “índio e terra constituem a mesma unidade”.

“Tem havido uma clara oposição das agências internas do governo que deveriam promover os atos demarcatórios de reconhecimento dos limites das terras indígenas. Tem havido uma clara protelação dos processos e até negação dos direitos que estão inscritos”, afirmou Ailton Krenak, acrescentando que o governo “está a desmontar os serviços que poderiam promover o reconhecimento dos direitos indígenas”.

Para o líder indígena, “a mais clara e óbvia declaração de guerra contra os povos nativos é o desmantelamento da agência indigenista”. “Na Fundação Nacional do Índio, além de sabotada internamente porque lhe cortam o orçamento, estão a ser demitidas todas as pessoas que têm algum cargo decisivo lá dentro, como funcionários de carreira que conduzem os processos formais de reconhecimento das terras indígenas”, acusou.

O facto de ser uma população pequena, “que não mobiliza a opinião pública em geral, a não ser pessoas com alguma sensibilidade formada sobre o assunto”, e de estar dispersa no território brasileiro “dificulta a eficácia da posição indígena”. Ailton Krenak lamenta que “para a grande maioria da população o que acontece com os índios é como se fosse um apêndice, uma coisa muito residual”, e lembra haver “uma ignorância grande da relevância dos lugares onde os índios vivem para o interesse comum”.

“Quando uma paisagem ou uma floresta é destruída longe da minha casa não tenho sensibilidade para isso e é uma pena. As pessoas não percebem que isso vai mudar o clima do planeta, a qualidade do ar e, em última instância, o tipo de herança que vamos deixar às gerações futuras. As pessoas só pensam no momento, não olham além do seu nariz”, considerou.

Em 1953, quando Ailton Krenak nasceu, havia no Brasil 65 pessoas da tribo Krenak, que constituíam quatro ou cinco famílias e tinham sido expulsas do território de onde eram originários. Hoje em dia, contou, há 150 famílias de Krenak no Brasil.

FONTE: http://observador.pt/2017/05/05/lider-indigena-brasileiro-acusa-governo-de-prejudicar-comunidades/

sexta-feira, 24 de março de 2017

“O pensamento colonial se prolifera como praga”, adverte Ailton Krenak

Postado em 23 de março de 2017 por Nonada


O escritor Ailton Krenak esteve em Porto Alegre nesta semana


por Lorenzo Leuck


O comunicador e ambientalista indígena Ailton Krenak ministrou a aula inaugural do Programa de Pós-graduação em Antropologia Social da UFRGS , intitulada “Povos Originários na América Latina: o dilema de integração”, terça-feira passada, 14 de março, no auditório do Instituto Latino-americano de Estudos Avançados do Campus do Vale.

Krenak foi figural central na asserção da autonomia e do território das nações indígenas na Constituição de 1988 e a definiu esta como um contrato com os operadores do sistema financeiro, donos de terra e chefes de indústria, que cada vez mais tem sido esvaziado de sua validade.

Sua fala apontou como padrões culturais perpetuados em ambientes de extrema opressão irrompem no nosso modo de fazer política. Para os índios, as consequências disso são devastadoras. “A ausência de agentes políticos que nos representem faz com que muitos tenham que morrer para que poucos possam ficar num sítio” expôs, frisando que, ao enfrentarem os latifundiários sozinhos, estão travando uma guerra suicida.

O fato de que nossa formação histórica impôs um único estilo de vida a diferentes etnias, culturas e tradições é fundamental para entender esse cenário. De acordo com Krenak, “a alienação e ausência de identidade é uma pá de cal na sobrevivência desses povos”.

Em retrospecto à estratégia tomada pelo movimento indígena nos anos 80, ele constatou que a ideia vigente então era de estabelecer uma base comum que abrangesse a todos. “Fizemos a coisa mais moderninha da época”, disse sobre os conselhos criados no Brasil, na América Latina e no mundo. “Não é a toa que recebíamos apoio de países como Estados Unidos, Canadá e Inglaterra”, comentou.

Esse dilema de integração também ocorreu com outras nações indígenas. Atualmente Krenak diz acreditar que “Os povos podem se unir sem serem todos iguais. Cada um com sua autonomia, aspirando o mundo que quiser viver”. Alguns países como a Colômbia e o Equador seguiram nessa direção adaptando suas constituições a um viés plurinacional.

No Brasil isso não aconteceu. Krenak contou que aqui, populações “à margem do progresso e da civilização” são apenas o apêndice de uma nação monolítica, onde até ações afirmativas se dão pela assimilação da cultura dominante.

O que levantou a questão: Onde podemos nos apoiar para fazer uma crítica se isso se imprimiu na nossa mentalidade?

Como expõe, quem está na academia só poderá mudar a sociedade se fizer uma crítica epistemológica às nossas formas de conhecimento, meios tecnológicos, e principalmente a maneira como operamos patrimônio.

Pois, de geração a geração, os moldes coloniais seguem os mesmos: Desperdiçamos a chance de intervir na realidade do país e do povo dispondo de nossos espaços de maneira autoritária, repetidamente nos “recolonizando”.

Um exemplo dado por ele é o do machismo.

“Quando vemos um homem explorar sua companheira podemos concluir que essa é uma atitude machista. Mas antes disso é uma atitude colonialista, enraizada no tempo que Manoel/Joaquim descansava em uma rede enquanto negras e índias caçavam e preparam sua comida”, suscitou o líder indígena.

Seguindo essa linha, ele dissertou que práticas como essa possibilitam que algumas famílias sejam donas do Brasil, e que se coloque em questão se a terra, a água e o ar são patrimônios.

“O pensamento colonial se prolifera como praga”, adverte Ailton Krenak, estendendo sua crítica à Globalização; não apenas uma ideia abstrata da academia, mas um fenômeno que se reproduz com uma faculdade inesgotável.

“Hoje as grandes corporações, o tempo inteiro ligadas e oniscientes, controlam tudo, desde a infraestrutura das cidades até os serviços públicos. Nossos governantes são apenas gerenciadores de pacotes atribuídos por elas”, declarou ele.

Como testemunha do maior desastre sócio-ambiental da história do Brasil, Ailton pôde comprovar isso da pior maneira possível; a lama tóxica da Samarco causou um dano irreparável não só ao Rio Doce, como também à população ribeirinha e a um povo que há séculos se sustém pela pesca em sua beirada, os Krenak.

No desfecho do encontro, o palestrante disse que discutir esse desgoverno é o ponto de partida para democratizar as instituições que administram o estado brasileiro. “Temos que ter pensamento crítico para não sermos presas fáceis a esse complexo sistema de dominação”, concluiu ele, destacando que integrar uma maneira mais eficaz de ser e estar na vida vem antes do que escrever um coletânea de artigos sobre descolonização.

# INTERLÚDIO

Então, é isso.

Talvez não exatamente nessa ordem, e é claro que MUITA coisa deixei fora porque, bem, não pretendo testar a paciência de ninguém.

Ainda assim, acho que tá bem resumido. O que não quer dizer que terminamos por aqui. Nossa editora disse que o formato ideal para a matéria era uma entrevista bate-bola, pingue pongue. E eu botei fé, temos que trazer conteúdo exclusivo pro nosso público.

Já estava tudo arranjado, me aproximei do amontoado de gente envolta do Krenak para falar com Carmen, nossa fonte. Ela me apontou Elisa, uma estudante do PPGAS que iria levar ele e uma galera até o templo budista de Viamão. Quando me convidaram aceitei sem pensar duas vezes.

Uma colega deles, provavelmente do intercâmbio, chegou e quis ir também. Falaram que não tinha mais espaço, mas ela insistiu dizendo que podia ir no porta malas.

Me senti ameaçado. Não havia absolutamente nada que pudesse fazer caso quisessem me tirar do esquema. Comecei a pensar em argumentos para defender minha posição. Eu estava lá como um jornalista, prestando um serviço de utilidade pública, isso devia valer alguma coisa.

Logo saímos do auditório, minha primeira interação com Krenak não gerou muitos resultados. Fomos até o carro de Elisa, no estacionamento do Vale. Eu pensava que era brincadeira o lance do porta-malas, mas não. A guria era pequena e o porta malas era grande.

A caminho do templo, a moça sentada ao meu lado no carro lembrou que dois dias antes do rompimento das barragens de Mariana, Krenak estava na UFRGS e cantou para o Rio Doce.

“Incrível como as corporações conseguiram sumir com isso. Nossas famílias ainda estão pasmas. Acabou a água, acabou o peixe.”

Mais de um milhão de pessoas afetadas. Hospitais e escolas tendo que ser abastecidos por caminhões pipa. Diretor da empresa impune.

Krenak leu para nós o esboço de um texto que estava escrevendo, chamado O insuportável abraço do progresso. Boa parte não deu pra ouvir por causa do barulho do engarrafamento. Pelo que pude entender, a ideia principal era que esse desastre não foi um caso isolado.

A partir da colonização portuguesa, o vale do Rio Doce, região repleta de paisagens naturais e recursos minérios, se tornou o alvo práticas de desvio e guerra contra os povos nativos.

Isso se estendeu por muito tempo, até que em algum ponto do século XIX, a primeira leva da imigração alemã se assentou lá, mas acabou morrendo por causa da febre amarela. Esse fato causou grande constrangimento à corte brasileira, que tentou remediar oferecendo terras mais ao sul. Inteirada nessa história, Elisa apontou que os próximos alemães foram parar em São Leopoldo, onde expulsaram guaranis e começaram oficialmente sua imigração no país. Outros países da Europa fizeram o mesmo.

Essa “nova era”, resultou em mais expedições científicas, na criação de órgãos higienistas, postos de controle, e no famoso SPI. O arrendamento de terras indígenas por posseiros e funcionários públicos virou algo de praxe.

O estabelecimento dessa prática chegou ao absurdo de durante a ditadura, um coronel “trocar” terras demarcadas por um sítio do exército, onde passariam a confinar índios que “saíam da linha” para formar um batalhão. Com a redemocratização, veio a era das grandes empresas comandadas pelo capital estrangeiro, que com o aval do governo, extraem recursos sem qualquer responsabilidade sócio-ambiental.

Chegando no templo fiquei feliz em encontrar Dona Iracema e Seu João, conhecidas lideranças Kaingang do Morro Santana. Representantes da comunidade Guarani de Viamão, assim como famílias e jovens, provavelmente em retiro, também estavam presentes. Percebi uma troca cultural muito intensa acontecendo, principalmente entre as crianças.



Conversa no Templo

Conversa no templo budista reuniu também lideranças kaingang e guarani

“Vivemos há 500 anos em uma situação de grande desequilíbrio. Como conseguimos dar seqüência a isso é algo completamente incompreensível”, afirmou Lama Padma Samten em encontro realizado dia 15 deste mês no Centro de Estudos Budistas Bodisatva, que reuniu lideranças Kaingang e Guarani com uma das principais referências do movimento indígena do Brasil, Ailton Krenak.

Na sua fala o sacerdote, mestre em física quântica pela UFRGS, constou que em meio a nossa vida “aparentemente normal”, se encontra uma violência muito antiga e uma resiliência extraordinária. Esta última capaz de manter, mesmo ante a uma cultura globalizada (e completamente orientada pelo paradigma econômico), conhecimentos não apenas no nível material, da natureza, como na inseparatibilidade de todas as dimensões.

Durante o evento, foi projetado o vídeo do consagrado discurso de Krenak no Congresso Nacional em 1987. Isso sensibilizou àqueles que já acompanhavam sua trajetória. “Quando ele passou aquela tinta preta eu chorei” admitiu a curandeira Guarani, Talcira Gomes. Outro representante Guarani comentou que há anos via essa fala de Krenak no DVD. “As palavras que ele fala tocam no coração, emocionam demais.”, disse Gildo da Silva.

“Às vezes eu fico impressionado com aquele moço falando bravo com os deputados e penso: Não sei se eu teria disposição e coragem para fazer aquilo de novo. Mas quando somos convocados a deixar que nosso verdadeiro ser se manifeste, nós podemos confiar porque não vai ter nada contra; cada tempo tem seu tempo”, refletiu Krenak.

“A gente teve que invadir Brasília, se lembra?”, comentou com ele o cacique Kaingang fundador do projeto de demarcação da terra indígena Borboleta, João Carlos Padilha.

“Eu pousei na praça, no mato, debaixo da ponte, na rodoviária. A polícia se cansou de me tirar dos lugares, de me acordar e me chamar de morador de rua. Tudo isso pra ajudar a discutir a constituição. Alguns povos que iam tinham dinheiro, bancados por certas ONGs, mas nós não”, recordou Padilha, ressaltando que foram mais de 50 anos de luta para garantir o direito dos povos indígenas, ainda assim, a questão fundiária e a demarcação de terras indígenas não foram resolvidas. O cacique acredita que o povo brasileiro tem que se erguer novamente para conquistar leis que atendam todas as culturas e etnias e preservam a natureza.

Ailton Krenak também elucidou que o entendimento dos povos indígenas sobre tradição é muito próximo ao que se tem no budismo. No ocidente esta é vista apenas como uma representação do passado completamente inútil à ciência, nessas culturas é a fonte de sua própria existência, um vínculo com toda a cosmogonia da criação.

Praticamente budista e nativo do Peru, José Luis Antark descreve nosso tempo como um buffet livre de conhecimento. Para ele, devemos pôr em prática o melhor aprendido de todas as culturas. E isso vale duas vezes para o Brasil.

“Não tem jeito, vão e se iluminem, façam alguma coisa. Tem tudo aqui para vocês, o conhecimento nativo está aberto, e lideranças indígenas estão dizendo ‘vamos trabalhar juntos’. Quem sente que não é por aí, ainda tem o caminho do Oriente e de todos os demais povos e culturas. É um lugar incrível, aproveitem. E se não der certo aqui a gente vai pro Peru ver o que passa lá”, brincou Antark. Em seguida cantos ancestrais e mantras foram entoados de acordo com cada tradição presente.

#INTERLÚDIO²

Já era noite quando o evento acabou. Tinha que voltar para casa. Depois de confirmar todos os nomes fui até o rapaz que veio comigo no carro. Ele disse pra eu arranjar outra carona, pois o grupo que trouxe Krenak morava ali na CEBB. Mestrado em antropologia e vivência no templo, combinação interessante. Falei com o Lama, que me apontou “Pene”, “Pene” ia levar Krenak até seu hotel no centro, e não se importava em me deixar no meio do caminho.

Passamos no refeitório antes de ir pois eles estavam famintos. Lá havia um pacote de bolacha integral e uma espécie de patê, provavelmente vegano e sem glúten. Um sujeito magro, de óculos e muito budista foi falar com Krenak. Ele o agradeceu por sua fala no encontro. A partir dela, concluiu que grande parte do mal causado no mundo vem da ignorância. Krenak concordou com isso apontando mais semelhanças entre tradições budistas e indígenas. Muitas delas veem a realidade como infinitos ciclos de ascensão e queda. Nós estamos caindo agora, e rápido. Krenak ainda fez uma referência ao “perspectivismo”, interpretação do antropólogo Eduardo Viveiro de Castro sobre o pensamento indígena amazônico.

“Em termos simples, nessa visão de mundo não há quem cause o mal e quem o receba. Tudo faz parte do mesmo”

“O sofrimento transcende”, assentiu o budista.

Em menos de um minuto eles expuseram algo que eu demorei anos para assimilar, causando até certo embaraço nas minhas tentativas de explicar.

“Faz sentido chegar pro Trump e dizer “Seu Trump, deixa de ser sem vergonha. Olha todo o mau que o senhor está causando”? Não! Esse é o trabalho dele e muitas pessoas estão contando com isso. Nada vai fazer as corporações “mudarem de ideia” e pararem de destruir a Terra.”

Continuaram a falar sobre o fim dos tempos. Ofereceram mais uma bolacha a Krenak, mas já era hora de ir. O budista, sem jeito, se arriscou a fazer mais uma pergunta.

“Tudo bem, temos que aceitar o final desse ciclo. Mas será que não há pelo menos um resquício de esperança de que tudo isso possa acabar bem?”

“Não”, Krenak riu com gosto, então fomos.

No trajeto até a Protásio tive a oportunidade de fazer a entrevista, mas resolvi falar mais com ele sobre o perspectivismo e outros temas que há muito me instigavam­­­­­.

Nonada – Trinta anos atrás o senhor fez um discurso histórico que garantiu a aprovação da Emenda Popular das Nações indígenas na Constituição de 88. A partir de 2015 ocorreram manifestações parecidas contra a PEC 215, que propunha retirar do executivo a exclusividade de demarcação de terras indígenas, uma evidente violação a essa conquista. A PEC foi aprovada, o que isso diz sobre o Período que estamos vivendo?

Ailton – Que nós estamos vivendo em um período onde a expressão dos movimentos sociais perdeu validade ante a quem está no poder. Quem exerce o poder político do país não se sente representante da sociedade, isso é uma revelação muito importante para a gente sacar. Se quem está no exercício do poder não representa mais a sociedade, ele não precisa atender mais nenhuma demanda da sociedade, é ilegítimo, entendeu?

Estamos vivendo em uma situação de ditadura, e ela é anterior ao golpe, por que tem uma mentalidade autoritária instalada no poder. Se lembra dos protestos contra Belo Monte? Isso foi antes do golpe, mas a tropa de choque foi lá, deu porrada em todo mundo, o trator passou, a hidrelétrica foi feita e inaugurada. Aquilo lá foi uma antecipação da cultura de golpe que cultivamos entre nós. A PEC 215 passa por que quem tá no poder não representa a sociedade nem se sente constrangido pelas manifestações dos movimentos sociais.

Nonada – É necessário fazer um novo contrato social para salvar a democracia? Que outras formas de organização política seriam necessárias?

Ailton – Quando eu falei ontem na abertura do PPGAS fiz uma referência de passagem a isso. Podemos continuar a fazer de conta que aquele contrato está valendo (Constituição de 88) mas quem está exercendo o poder já jogou aquilo no lixo. Tem muitos segmentos da vida política e social brasileira que acham que tem que radicalizar e retomar esse espaço de para o interesse comum. Não deixar que ele seja apropriado por quadrilhas. Se nós estamos vivendo no contexto que quadrilhas tomaram conta do poder como vamos querer que eles cumpram um pacto social com a gente? É brincadeira, né? Nós estamos nos iludindo.

Nonada – As novas tecnologias da informação garantiram a hegemonia das multinacionais e da especulação financeira. Ainda assim, tornaram cada vez mais comum o surgimento de meios como Radio Yandê e Comunicação Kuery, aqui no sul. Para o senhor, um dos primeiros comunicadores de massa da causa indígena, onde tudo isso está nos levando?

Ailton – Tem um camarada chamado Noam Chomsky, um linguista e grande pensador do ocidente, que vive confrontando a mediocridade do pensamento gringo, americano, que quer dominar o mundo. Ele tem uma visão muito crítica sobre essa ideia da conspiração. Ele acha o seguinte. Se essas tecnologias foram apropriadas pelo capital e domina todo o cenário, ela não pode dominar as possibilidades de rebeldia e insurgência. Essa “periferia”, onde aparece a rádio yandê e outros movimentos sociais como mídia ninja, é exatamente a parte que o sistema não controla. As vezes podemos achar que tem uma coisa conspiratória controlando tudo, mas nada controla tudo. Sempre tem alguma coisa que fica vazando, e é nesse espaço que vaza que temos que atuar, entendeu?

Nonada – Qual sua opinião sobre o programa “Saberes Indígenas na Escola”?

Ailton – Olha, Saberes Indígenas nas Escolas é interessante porque é um contrafluxo de todo o bombardeio que sai de dentro dos sistemas de produção de conhecimento pra cima da vida das pessoas. O contrafluxo de levar o saber indígena para a escola é uma gota no oceano, mas é uma gota e tem a ver com aquilo que a gente falou, nem tudo está dominado: sempre tem a possibilidade de uma gota no oceano.

Nonada – Esse programa é financiado por verba federal, isso significa que dá pra dialogar com o governo?

Ailton – Você não ouviu meu comentário sobre como o sistema financeiro global se utiliza das mídias e tecnologias de informação para consolidar o domínio dele, mas mesmo assim algo acaba vazando? A ideia de que um aparato do Estado, através dos governos locais, promovam ações afirmativas ou que leve o saber indígena nas escolas, não é uma coisa que esses governos fazem voluntariamente, eles fazem isso porque eles não conseguem conter essa parte, porque se eles pudessem, nem isso eles deixavam acontecer.

Nonada – E tomar o governo para torná-lo a favor do povo, é possível?

Ailton – É um desafio. Se nós não fizermos isso nós vamos ficar sempre nas bordas sentindo a pressão. Os movimentos sociais tão na rua aí, de repente eles estão na rua porque os sindicatos querem ir pra rua. Até dois anos atrás os sindicatos todos estavam adorando o que tava rolando e muitos desses sindicatos foram para a rua pedir o golpe e agora estão começando a despertar e perceber que fizeram uma cagada. Eles agora estão pensando em mobilizar a população dos municípios do país. Se esse conjunto de interesses conseguir mobilizar todo mundo, tiram esses caras que estão aí.

Nonada – Sua visão sobre ecologia e sustentabilidade levanta duas questões centrais sobre nosso modo de vida. Como fazemos para nos alimentar? O que fazemos com nosso lixo? Nós, enquanto sistema capitalista, conseguiremos apreender que a terra tem limite?

Ailton – Exatamente, a grande questão que o nosso querido xamã Yanomami coloca é, se essa civilização não pára de crescer e ela demanda tanta comida, tanta produção de alimento, aonde é que ela joga seu lixo?

A pergunta básica é, se ela tem que comer tanto, aonde é que ela caga depois?

Aí a gente só pode responder, elas estão cagando o planeta inteiro: nos rios, nos mananciais, nas nascentes, na floresta… Esse paradigma tem que ser virado, se a gente não mudar o paradigma, a gente não muda essa prática.

Eu estou colaborando com um amigo meu que é engenheiro, na produção de um texto, onde dizemos que nós temos que provocar uma séria reflexão sobre o modo de produzir. O modo de produzir é determinado pela técnica que foi desenvolvida e que chegou nisso que nós somos hoje.

A engenharia domina o mundo da produção em amplos termos; todas as engenharias dominam o mundo da produção. Então, se você não formar pessoas nas universidades, nas escolas, com outro paradigma, você vai continuar tendo uma tecnologia e engenharia destrutiva do planeta, sustentando o capitalismo e mantendo a roda girando desse jeito, até a gente destruir a última água.


Fonte: http://www.nonada.com.br/2017/03/o-pensamento-colonial-se-prolifera-como-praga-adverte-ailton-krenak/

OBS: Neste site, encontra-se o vídeo da entrevista

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Eis um homem-burum: Ailton Krenak


Jornal do Brasil

Leonardo Boff

22/01 às 00h15

No meio da balbúrdia dos discursos políticos, golpistas e anti-golpistas da atualidade é refrescante e animador entrar em contacto com o pensamento e a visão da realidade desta notável liderança dos povos originários que é Ailton Krenak. Ao término da leitura das entrevistas e textos reunidos em livro “Ailton Krenak: encontros” (Azouge A Editorial, Rio, 2015) somos levados a exclamar: “Eis aqui um homem inteiro e integral, um verdadeiro “burum” (ser humano em lingua krenak).

Nasceu em 1953 da família indígena dos Krenak que se situa no vale do Rio Doce na divisa do Espírito Santo com Minas Gerais. Sob sua liderança foram criadas duas entidades importantes para a causa indígena: a União das Nações Indígenas (UNI) que articula cerca de 180 etnias diferentes e a Aliança dos Povos da Floresta. Alfabetizou-se tardiamente. Mas para ele o fato não tem o significado que nós lhe atribuímos. “Escrever e ler para mim não é uma virtude maior do que andar, nadar, subir em árvores, correr, caçar, fazer um balaio, um arco, uma flecha”.

O grande ensinamento vem das tradições sagradas das tribos e da inserção na natureza e no universo. Ironicamente observa:”meu avô viveu até 96 anos. Para meu povo ele foi um sábio e um guerreiro; para o governo brasileiro foi um menino, um sujeito que devia ser vigiado e tutelado”.

Contra esse tipo de interpretação e de política Krenak move dura crítica. Famoso foi seu discurso pronunciado a 4 de setembro de 1987 na Assembleia Nacional Constituinte. Diante de todos pintou-se de luto e se vestiu com os símbolos indígenas. Era um protesto contra a forma como eles foram historicamente tratados. Denunciava:”Hoje somos alvo de uma agressão que pretende atingir, na essência, a nossa fé e a nossa confiança…o povo indígena tem regado com sangue cada hectare dos 8 milhões de quilômetros do Brasil”. Mas ficou feliz com as leis aprovadas a favor dos povos originários na Constituição, embora sejam continuamente violados.

Jamais devemos esquecer uma das páginas mais vergonhosas e cruéis de nossa história. Dom João VI mal chegado ao Brasil decretou por Carta Regia de 13 de maio de 1808 uma Guerra ofensiva contra o que chamavam de botocudos (pelo enfeito que usavam no lábio, o botoque). Aí se decretava: deveis considerar como principiada contra estes índios antropófagos uma guerra ofensiva que continuareis sempre em todos os anos nas estações secas e que não terá fim,senão quando tiverdes a felicidade de vos senhorear de suas habitações e de os capacitar da superioridade das minhas reais armas de maneira tal que movidos do justo terror das mesmas, peçam a paz e sujeitando-se ao doce jugo das Leis” Nada mais arrogante e mentiroso (não eram antropófagos) que semelhante texto. Os Krenak quase foram exterminados. Mas embrenharam-se nas matas e lentamente se refizeram como uma tribo corajosa, inteligente e guerreira que gerou Ailton Krenak.

A principal luta de Ailton Krenak é a preservação da identidade tribal seja em seus territórios, seja nas zonas urbanas. Mostra os equívocos das tentativas de aculturá-los, de incorporá-los à sociedade nacional, em fim de civilizá-los sem dar-se conta da imensa sabedoria ancestral de que são portadores e da comunhão profunda que vivem com a natureza e o universo. Atualmente, em meio à crise universal ecológica, mostram-se nossos mestres e doutores.

“Nós somos índios só para os brancos”, diz Krenak. Nós temos nossa identidade e nome: krenak, yanomami, guarani-kaiowa e outros. “Para nós não existe a América Latina; existe o universo”.

Ele e os de sua tribo são profundamente religiosos. Diz ele: “eu pratico, mas eu não tenho que ir a um templo, não tenho que ir a uma missa. Eu me relaciono com o meu Criador, me relaciono com a natureza e com os fundamentos da tradição de meu povo”. Numa outra entrevista afirma:”Os Krenak acham que nós somos parte da natureza, as árvores são as nossas irmãs, as montanhas pensam e sentem. Isso faz parte de nossa sabedoria, da memória da criação do mundo”. Aqui emerge a mesma experiência de São Francisco de Assis e nos remete à encíclica sobre a ecologia integral do Papa Francisco.Com coragem defende o sagrado que está em todas as coisas.

Lembro-me que num dos primeiros congressos sobre ecologia havidos no Brasil coube-me expor a visão de São Francisco sobre a fraternidade universal, com o sol e com todos os seres. Ao término disse o cacique e xamâ Davi Kopenawa dos yanomamis: “esse não é um santo católico; ele é como nós, um indígena”.

Por fim vale ouvir este testemunho de Allton Krenak:”Eu acho que teve uma descoberta do Brasil pelos brancos em 1500 e depois uma descoberta do Brasil pelos índios na década de 1970 e 1980. A que está valendo é esta última. Os índios descobriram que, apesar de eles serem simbolicamente os donos do Brasil, eles não tem lugar nenhum para viver nesse pais. Terão que fazer esse lugar existir dia a dia expressando sua visão do mundo, sua potência como seres humanos, sua pluralidade, sua vontade de ser e de viver”. Devemos todos apoiar esse justo deiderato.

*Leonardo Boff é articulista do JB on line e escreveu: O casamento do Céu com a Terra, Mar de Ideias, Rio 2010